quinta-feira, 13 de outubro de 2011
CARTA DO ACRE - Salvação da Amazônia ou Armadilha do Capitalismo Verde?
Texto que dificilmente os veiculos de comunicação do estado do Acre vão publicar.
CARTA DO ACRE
Estivemos reunidos em Rio Branco - AC, entre os dias 3 a 7 de outubro
de 2011 na Oficina Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES:
Salvação da Amazônia ou Armadilha do Capitalismo Verde?
Estávamos presentes, organizações socioambientais, de trabalhadoras e
trabalhadores da agricultura familiar, organizações de Resex e
Assentamentos Extrativistas, de direitos humanos (nacionais e
internacionais), organizações indígenas, organizações de mulheres,
pastorais sociais, professores, estudantes e pessoas da sociedade
civil comprometidas com a luta “dos de baixo”.
Percebemos a formação de um consenso em torno da ideia de que, desde
1999, com a eleição do governo da Frente Popular do Acre (FPA), foram
tomadas iniciativas para a implantação de um “novo modelo” de
desenvolvimento. Desde então, tal modelo é celebrado como primor de
harmonia entre desenvolvimento econômico e conservação da floresta, de
seus bens naturais e do modo de vida de seus habitantes. Com forte
apoio dos meios de comunicação , de sindicatos, de ONGs promotoras do
capitalismo verde na região amazônica, de bancos multilaterais, de
oligarquias locais, de organizações internacionais, ele é apresentado
como “modelo exitoso” a ser seguido por outras regiões do Brasil e do
mundo.
Nesses dias, tivemos oportunidade de conhecer, em campo, algumas
iniciativas tidas como referência no Acre. Vimos de perto os impactos
sociais e ambientais do “desenvolvimento sustentável” em curso no
estado. Visitamos o Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico
Mendes, Fábrica de Preservativos NATEX e o Seringal São Bernardo
(Projeto de Manejo Florestal Sustentável das Fazendas Ranchão I e II).
As visitas nos colocaram diante de um cenário bastante distinto
daquilo que é propagandeado nacional e internacionalmente.
No Seringal São Bernardo, pudemos constatar que o atendimento dos
interesses das madeireiras se faz em detrimento dos interesses das
populações locais e da conservação da natureza. Mesmo as questionáveis
regras dos planos de manejo são desrespeitadas e, segundo dizem os
moradores, com conivência de gestores estatais. No caso do Projeto de
Assentamento Agroextrativista Chico Mendes Cachoeira (em Xapuri),
constatamos que os moradores continuam subjugados ao domínio
monopolista, atualmente vendem a madeira para a empresa “Laminados
Triunfo” a R$ 90,00 o m3, quando a mesma quantidade de madeira chega a
valer até R$ 1.200,00 na cidade. Por isso, endossamos a reivindicação
de diversas comunidades pela suspensão dos famigerados projetos de
manejo. Solicitamos a apuração de todas as irregularidades e exigimos
a punição dos culpados pela destruição criminosa dos bens naturais.
Os dias em que tivemos reunidos foram dedicados ainda ao estudo sobre
Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES. Compreendemos o
papel dos Bancos (Banco Mundial, FMI, BID e BNDES), ONG´s
comprometidas com o capitalismo verde, tais como WWF, TNC e CI; bem
como o papel de outras instituições como ITTO, FSC e USAID, setores da
sociedade civil e Governos Estadual e Federal que têm se aliado ao
capital internacional na intenção de mercantilizar o patrimônio
natural da Amazônia.
Ressaltamos que, além de desprovida de amparo constitucional, a Lei N°
2.308, de 22 de outubro de 2010, que regulamenta o Sistema Estadual de
Incentivo a Serviços Ambientais foi criada sem o devido debate com os
setores da sociedade diretamente impactados por ela, isto é, os homens
e mulheres dos campos e floresta. Reproduzindo servilmente os
argumentos dos países centrais, os gestores estatais locais a
apresentam como uma forma eficaz de contribuir com o equilíbrio do
clima, proteger a floresta e melhorar a qualidade de vida daqueles que
nela habitam.
Deve-se dizer, entretanto, que a referida lei gera “ativos ambientais”
para negociar os bens naturais no mercado de "serviços ambientais",
como o mercado de carbono . Trata-se de um desdobramento da atual fase
do capitalismo cujos defensores, no intuito de assegurar sua
reprodução ampliada, lançam mão do discurso ambiental para
mercantilizar a vida, privatizar a natureza e espoliar as populações
do campo e da cidade. Pela lei, a beleza natural, a polinização de
insetos, a regulação de chuvas, a cultura, os valores espirituais, os
saberes tradicionais, a água, plantas e até o próprio imaginário
popular, tudo passa a ser mercadoria. A atual proposta de modificação
do Código Florestal complementa esta nova estratégia de acumulação do
capital, ao autorizar a negociação das florestas no mercado
financeiro, com a emissão de "papéis verdes", a chamada Certidão de
Cotas de Reserva Ambiental (CCRA). Desse modo, tudo é colocado no
âmbito do mercado para ser gerido por bancos e empresas privadas.
Embora apresentada como solução para o aquecimento global e para as
mudanças climáticas, a proposta do REDD permite aos países centrais do
capitalismo manterem seus padrões de produção, consumo e, portanto,
também de poluição. Eles continuarão consumindo energia de fontes que
produzem mais e mais emissões de carbono. Historicamente responsáveis
pela criação do problema, agora propõe m a “solução” que mais atende a
seus interesses. Possibilitando a compra do “direito de poluir”,
mecanismos como o REDD forçam as denominadas “populações
tradicionais”is (ribeirinhos, indígenas, quilombolas, quebradeiras de
coco, seringueiros etc.) a renunciarem a autonomia na gestão de seus
territórios.
Com isso, embaralham-se os papeis. O capitalismo, civilização mais
predadora da história da humanidade, não representaria nenhum
problema. Ao contrário, seria a solução. Os destruidores seriam agora
os grandes defensores da natureza. E aqueles que historicamente
garantiram a conservação natural são, agora, encarados como predadores
e por isso mesmo são criminalizados. Não surpreende, portanto, que
recentemente o Estado tenha tornado mais ostensiva a repressão, a
perseguição e até expulsão das populações locais de seus territórios.
Tudo para assegurar a livre expansão do mercado dos bens naturais.
Com o indisfarçável apoio estatal, por esse e outros projetos o
capital hoje promove e conjuga duas formas de re-territorialização na
região amazônica. De um lado, expulsa povos e comunidades do
território (como é o caso dos grandes projetos como as hidrelétricas),
privando-os das condições de sobrevivência. De outro, tira a relativa
autonomia daqueles que permanecem em seus territórios, como é o caso
das áreas de conservação ambiental. Tais populações até podem
permanecer na terra, mas já não podem utilizá-la segundo seu modo de
vida.Sua sobrevivência não seria mais garantida pelo roçado de
subsistência - convertido em ameaça ao bom funcionamento do clima do
planeta -, mas por “bolsas verdes”, que, além de insuficientes, são
pagas para a manutenção da civilização do petróleo.
Cientes dos riscos que tais projetos trazem, rechaçamos o acordo de
REDD entre Califórnia, Chiapas, Acre que já tem causado sérios
problemas a comunidades indígenas e tradicionais, como na região de
Amador Hernández, em Chiapas, México. Por isso nos solidarizamos com
as populações pobres da Califórnia e Chiapas que já têm sofrido com as
consequências. Solidarizamo-nos também com os povos indígenas do
TIPNIS, na Bolívia, sob ameaça de terem seu território violado pela
estrada que liga Cochabamba a Beni financiada pelo BNDES.
Estamos num estado que, nos anos de 1970-80, foi palco de lutas
históricas contra a expansão predatória do capital e pela defesa dos
territórios ocupados por povos indígenas e populações camponesas da
floresta. Lutas que inspiraram muitas outras no Brasil e no mundo.
Convertido, porém, a partir do final da década de 1990, em laboratório
do BID e do Banco Mundial para experimentos de mercantilização e
privatização da natureza, o Acre é hoje um estado “intoxicado” pelo
discurso verde e vitimado pela prática do “capitalismo verde”. Dentre
os mecanismos utilizados a fim de legitimar essa ordem de coisas,
ganha destaque a manipulação da figura de Chico Mendes. A crer no que
nos apresentam, deveríamos considerá-lo o patrono do capitalismo
verde. Em nome do seringueiro, defende-se a exploração de petróleo, o
monocultivo da cana-de-açúcar, a exploração madeireira em larga escala
e a venda do ar que se respira.
Ante tal quadro, cumpre perguntar o que mais não caberia nesse modelo
de “desenvolvimento sustentável”. Talvez em nenhum outro momento os
pecuaristas e madeireiros tenham encontrado cenário mais favorável. É
por essa razão que cremos necessário e urgente combatê-lo posto que,
sob aparência de algo novo e virtuoso, ele reproduz as velhas e
perversas estratégias de dominação e exploração do homem e da
natureza.
Por fim deixamos aqui nossa reivindicação pelo atendimento das
seguintes demandas: reforma agrária, homologação de terras indígenas,
investimentos em agroecologia e economia solidária, autonomia de
gestão dos territórios, saúde e educação para todos, democratização
dos meios de comunicação. Em defesa da Amazônia, da vida, da
integridade dos povos e de seus territórios e contra o REDD e a
mercantilização da natureza. Estamos em luta.
Rio Branco, Acre, 11 de outubro de 2011
Assinam esta carta:
Assentamento de Produção Agro-Extrativista Limoeiro-Floresta
Pública do Antimary (APAEPL)
Amazonlink
Cáritas - Manaus
Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular do Acre (CDDHEP/AC)
Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da
Bahia (CEPEDES)
Comissão Pastoral da Terra – CPT Acre
Conselho Indigenista Missionário – CIMI Regional Amazônia Ocidental
Conselho de Missão entre Índios – COMIN Assessoria Acre e Sul do Amazonas
Coordenação da União dos Povos Indígenas de Rondônia, Sul do Amazonas
e Noroeste do Mato Grosso - CUNPIR
FERN
Fórum da Amazônia Ocidental (FAOC)
Global Justice Ecology Project
Grupo de Estudo sobre Fronteira e Identidade - Universidade Federal do Acre
Instituto Madeira Vivo (IMV-Rondônia)
Instituto Mais Democracia
Movimento Anticapitalista Amazônico - MACA
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC - Roraima)
Nós Existimos - Roraima
Núcleo Amigos da Terra Brasil
Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia
Ocidental -Universidade Federal do Acre.
Oposição Sindical do STTR de Brasiléia
Rede Acreana de Mulheres e Homens
Rede Alerta Contra o Deserto Verde
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bujarí (STTR - Bujarí)
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STTR- Xapuri)
Terra de Direitos
União de Mulheres Indígenas da Amazonia Brasileira
World Rainforest Movement (WRM)"
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